Resposta rápida
88% dos líderes de RH europeus disseram que a IA ficou longe de gerar valor real. Os três erros que se repetiram lá, e o padrão exato que o Brasil está prestes a reproduzir.
Carta do Sul da França · Junho 2026 · 9.300 km entre 43° N · 5° L e 23° S · 46° O
Nas últimas semanas, recebi três mensagens de líderes brasileiros pedindo indicações de "o que as empresas europeias estão fazendo em IA que deu certo."
Eu sei que muitos pensam que no mercado exterior a grama é mais verde, mas devemos fazer outro tipo de pergunta.
O que vale muito mais atenção agora, especialmente para quem está no começo ou no meio de uma jornada de implementação, é o que deu errado. Porque daqui de dentro, observando os dois mercados ao mesmo tempo, o que vejo é que o Brasil está prestes a repetir os mesmos erros, na mesma sequência, pelos mesmos motivos.
A Europa correu, e depois ficou parada
A Europa saiu na frente na adoção de IA generativa por uma combinação de pressão regulatória, recursos disponíveis e narrativa de urgência competitiva. As grandes corporações correram para implementar e houve um boom de relatórios publicados, apresentações para o board aprovadas e projetos piloto anunciados. A questão do "como a nossa empresa vai usar IA" foi respondida com um comitê multidisciplinar e um conjunto de licenças aprovadas.
E então nada aconteceu.

Porque, na prática, não houve mudanças dinâmicas operacionais, no treinamento das pessoas ou na cultura da empresa. O silêncio foi a resposta: as ferramentas foram instaladas, algumas pessoas as usaram e os processos continuaram os mesmos. Os números de produtividade permaneceram estáticos.
Três anos depois de estar "implementando IA", 88% dos líderes de RH de grandes organizações reportaram à Gartner, em pesquisa de julho de 2025, que as ferramentas adotadas ficaram longe de gerar valor de negócio significativo.
Oitenta e oito por cento.
O abismo que os dados revelam
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Organizações que adotaram IA generativa no RH | 61% (subiu de 19% em 2023) |
| Organizações com maturidade real em IA (93 países) | 5% |
| Líderes de RH que realizaram valor de negócio significativo | 12% |
O dado revela um padrão de erro que se repetiu em empresa após empresa, e que tem três formas reconhecíveis.
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Erro 01 · IA gerida como projeto de TI
A primeira é a mais fácil de ver de fora: a decisão de IA foi tratada como decisão de TI. O departamento de tecnologia conduziu a escolha das ferramentas, a implantação, o treinamento técnico e a medição de resultado. O RH ficou à margem das decisões, recebendo a notícia depois que o projeto já estava desenhado. A liderança aprovou o budget e manteve o trabalho ao redor da ferramenta intacto.
O resultado previsível é o que levantamentos recentes sobre o cenário brasileiro indicaram em dezembro de 2025, em pesquisa com 330 líderes de RH:
70,2% das iniciativas de IA das empresas brasileiras já estão sob liderança de TI, com o RH fora das decisões que mais afetam as pessoas.
O Brasil está no começo da mesma jornada.
Erro 02 · Adoção sem redesenho de processo

A segunda forma de erro é menos visível, mas mais cara. As empresas europeias correram para a adoção sem parar para redesenhar os processos que a IA deveria melhorar. Compraram a licença, fizeram o onboarding e enviaram o time de volta para o trabalho da semana anterior, agora com uma ferramenta nova numa rotina antiga.
Em quase 10 mil líderes em 93 países, 75% das organizações ainda estão nos estágios iniciais de maturidade de IA, fazendo iniciativas esporádicas e desconectadas, e apenas 5% atingiram maturidade real. A taxa de adoção de IA generativa no RH subiu de 19% para 61% entre 2023 e início de 2025, segundo a Gartner, mas a maturidade ficou para trás.
A ferramenta mudou enquanto o trabalho ao redor dela ficou estático.
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Erro 03 · Dimensão humana ignorada

A terceira forma é a que os líderes brasileiros menos esperam ter que lidar: a dimensão humana da implementação. Na Europa, a resistência dos funcionários, que é expressa como baixa adoção, ceticismo ativo, ou simplesmente ignorar a ferramenta, foi tratada como problema de comunicação.
"Precisamos fazer mais campanhas internas."
"Vamos criar um embaixador de IA por área."
As pesquisas descrevem o mecanismo real: segundo levantamento da Gartner com 12 mil funcionários em 40 países no primeiro trimestre de 2026, a ansiedade generalizada sobre perda de emprego está minando a produtividade e desacelerando a adoção em toda a força de trabalho.
O que os funcionários precisam é clareza sobre o que muda no trabalho deles, e o que permanece igual.

Framework de implementação de IA: Resposta rápida e A Europa correu, e depois ficou parada.
A pergunta que abre todo projeto na Groovia
Na Groovia, a gente começa cada projeto com a mesma pergunta:
O que vai mudar no trabalho real da pessoa na segunda-feira depois que a ferramenta estiver instalada?
A resposta a essa pergunta define tudo, desde a escolha da ferramenta até o treinamento e a métrica de sucesso.
Olhando para esses três erros, IA gerida como projeto de TI, adoção sem redesenho de processo, dimensão humana ignorada, em qual deles o seu projeto atual já está?
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O que as empresas que acertaram fizeram diferente
As empresas europeias que evitaram esses erros têm algo em comum que raramente aparece nas apresentações de case. Elas trataram a IA como uma questão de força de trabalho desde o primeiro dia, com o RH na mesa antes de qualquer decisão tecnológica. A comunicação sobre o que mudaria em cada nível da organização veio antes da ferramenta. O redesenho do processo aconteceu junto com a compra da licença, na mesma semana, antes do primeiro onboarding.
Os números da Gartner são específicos sobre o impacto disso:
Funcionários com visão positiva da IA têm 3,4 vezes mais probabilidade de serem altamente produtivos.
O fator que mais move essa percepção é a confiança de que o papel deles tem futuro e a comunicação transparente sobre como esse papel vai evoluir.
A vantagem de chegar depois
O Brasil tem uma vantagem que não chegou para as europeias: a possibilidade de aprender com o que já deu errado antes de cometer os mesmos erros.
Essa vantagem tem uma janela.
Cada mês de IA sendo gerida como projeto de TI, cada processo mantido idêntico ao que era e cada funcionário sem clareza sobre o que muda no seu trabalho aproximam o Brasil do mesmo resultado, que consiste em anos de licença paga, centenas de horas de treinamento e os mesmos números na planilha.
O que vai determinar se a sua empresa está nos 12% ou nos 88% é o que você decidir mudar antes de qualquer escolha de ferramenta.
Qual dessas decisões você ainda está adiando?
Bruno Pinheiro é CEO da Groovia e opera entre Brasil e Sul da França. Esta carta é publicada mensalmente.
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Antes de escolher a próxima ferramenta, vale ver como estruturar a adoção de IA por etapas e quais soluções de IA para lideranças existem. O diagnóstico gratuito de IA mostra o gargalo real do seu estágio.
O contexto brasileiro: LGPD, ANPD e o PL 2338
No Brasil, qualquer decisão sobre implementação de IA passa pela LGPD (Lei 13.709/2018). A ANPD pode aplicar sanção de até 2% do faturamento da empresa no Brasil, limitada a R$ 50 milhões por infração, e o PL 2338/2023 avança para criar o marco legal da IA, com obrigações de transparência, avaliação de risco e supervisão humana em sistemas de alto impacto.
Na prática, isso significa três coisas para a liderança: registrar quais ferramentas de IA tratam dados pessoais, definir quem responde por cada decisão automatizada e manter trilha de auditoria do que foi gerado por máquina.
A Groovia acompanha essa jornada com um time de 6 humanos e 78 agentes próprios, e já conduziu 100 sócios pela Curva de Maturidade em IA, das 5 etapas que levam uma empresa de AI First a AI Native.